Abre-se discussão sobre violência sexual

 

Por Beatriz Lins

O recente caso, no qual o ator renomado José Mayer confirmou ter assediado a figurinista da Rede Globo, tornou a pôr em foco o debate sobre assédio. Outras atrizes aderiram à causa usando a frase “Mexeu com uma, mexeu com todas” publicamente.

Mayer foi afastado do trabalho, deixando de receber e fazer parte de outras gravações por tempo indeterminado, apesar de ter se pronunciado em uma carta aberta pedindo desculpas à vítima.

 

Segue fragmentos da carta pública de autoria do autor

:
“Mesmo não tendo tido a intenção de ofender, agredir ou desrespeitar, admito que minhas brincadeiras de cunho machista ultrapassaram os limites do respeito com que devo tratar minhas colegas. Sou responsável pelo que faço.
(…)
Aprendi nos últimos dias o que levei 60 anos sem aprender. O mundo mudou. E isso é bom. Eu preciso e quero mudar junto com ele.

Este é o meu exercício. Este é o meu compromisso. Isso é o que eu aprendi.
(…)”

A mulher do ator também expressou sua opinião. Ela disse que não deixaria a situação afetar seu casamento de longa data.

Sobre esse assunto, já foram feitas diversas entrevistas com inúmeras mulheres e os resultados foram assustadores. Em uma dessas entrevistas, datada de 2013, o número de moças entrevistadas passou de sete mil. Dentre todas essas mulheres entrevistadas, 90,6% haviam sofrido algum tipo de assédio em lugares como transportes públicos, e suas próprias residências.

 

Entende-se como abuso sexual “qualquer ato sexual ou tentativa do ato não desejada, ou atos para traficar a sexualidade de uma pessoa, utilizando repressão, ameaças ou força física, praticados por qualquer pessoa independente de suas relações com a vítima, qualquer cenário, incluindo, mas não limitado ao do lar ou do trabalho.” (Organização Mundial de Saúde).

 

Há quatro tipos de violência sexual: a pedofilia – em que um adulto se sente sexualmente atraído por uma criança, podendo ser acusado a partir dos dezesseis anos, desde que haja cinco anos de diferença entre o molestador e o molestado (esse caso é considerado um transtorno mental – parafilia); o estupro – ato de obrigar alguém, por meio de violência física ou moral, a praticar o ato sexual, estando a pessoa ciente ou não da violência causada a si; a exploração sexual – práticas sexuais na qual há obtenção de lucro por parte do agressor e o assédio sexual, que ocorre quando há uma aproximação ou diálogo de cunho sexual indesejado.
No local de trabalho, o assédio à mulher pode acontecer por meio de coação hierárquica, na qual o agressor se vale do cargo de chefia para pressionar a vítima a prestar algum favor sexual.

 

Há, ainda, o preconceito de gênero, no qual a mulher é vista como um ser inferior e, por isso, sofre diferentes tipos de violência.
Alguns homens acusam o sexo feminino de agir incorretamente, culpando-as dos decorrentes estupros e casos de assédio. Um exemplo usual é a crítica a algumas vestimentas, como blusas decotadas, sias vestidos ou shorts curtos ou justos. Por isso, há jovens que se recusam a usar esses tipos de roupa por medo de sofrer algum tipo de agressão, sendo ela verbal ou não. Sabe-se que cantadas machistas e toques íntimos não permitidos ocorrem diariamente, independente das vestes utilizadas pela vítima.

Neste ano, o número de denúncias referentes à violência contra a mulher cresceu 88%. Na Grande São Paulo, um grupo de amigas se reuniu e organizou um movimento contra o assédio no carnaval.  As organizadoras Ana Luiza Geraldini, Ana Luísa Souto, Nina Spieth, Luiza Navarro e Anahi Cubas utilizavam, junto com as participantes e a madrinha do bloco Pagu, a Mc Preta Rara, uma fita vermelha no braço, além de transportar mensagens feministas. A ideia foi obtida por meio da constatação de que a maioria das mulheres já havia passado por situações de assédio no carnaval.
O ligue 180, destinado a mulheres que sofreram agressões ou abusos sexuais, recebeu mais de duas mil ligações nos intervalos do dia 25 até 28 de fevereiro, período de carnaval. Contudo, devemos considerar o temor que as mulheres sentem ao fazer a denúncia. Vejamos um fragmento da pronúncia de Su Tonani:
“A opressão é aquela que nos engana e naturaliza o absurdo. Transforma tudo em aceitável, em tolerável, em normal. A vaidade é aquela que faz o outro crer na falta de limite, no estrelato, no poder e na impunidade. Quantas vezes teremos que pedir para não sermos sexualizadas em nosso local de trabalho? Até quando teremos que ir às ruas, ao departamento de RH ou à ouvidoria pedir respeito?
(…)
Sinto no peito uma culpa imensa por não ter tomado medidas sérias e árduas antes, sinto um arrependimento violento por ter me calado, me odeio por todas as vezes em que, constrangida, lidei com o assédio com um sorriso amarelo. E, principalmente, me sinto oprimida por não ter gritado só porque estava em meu local de trabalho. Dá medo, sabia? Porque a gente acha que o ator renomado, 30 e tantos papéis, garanhão da ficção com contrato assinado, vai seguir impassível, porque assim lhe permitem, produto de ouro, prata da casa. E eu, engrenagem, mulher, paga por obra, sou quem leva a fama de oportunista. E se acharem que eu dei mole? Será que vão me contratar outra vez?

Tenho de repetir o mantra: a culpa não foi minha. A culpa nunca é da vítima. E me sentiria eternamente culpada se não falasse. Precisamos falar. Precisamos mudar a engrenagem.

Não quero mais ser encurralada, não quero mais me sentir inferior, não quero me sentir mais bicho e muito menos uma “vaca”. Não quero ser invisível se não estiver atendendo aos desejos de um homem.
(…) ”

 

Muitas mulheres sequer oficializam em delegacias os casos sofridos. Como podemos ver no depoimento acima, a figurinista, por se sentir oprimida, a princípio não denunciou o assédio cometido pelo ator global, só vindo a fazê-lo após abuso físico e difamação pública.

Em fevereiro de 2017, dentro do camarim da empresa, na presença de outras duas mulheres, esse ator, branco, rico, de 67 anos, que fez fama como garanhão, colocou a mão esquerda na minha genitália. Sim, ele colocou a mão na minha parte íntima* e ainda disse que esse era seu desejo antigo. Elas? Elas, que poderiam estar no meu lugar, não ficaram constrangidas. Chegaram até a rir de sua “piada”. Eu? Eu me vi só, desprotegida, encurralada, ridicularizada, inferiorizada, invisível. Senti desespero, nojo, arrependimento de estar ali. Não havia cumplicidade, sororidade.
(…)
Nos próximos dias, fui trabalhar rezando para não encontrá-lo.
(…)
Até que nos vimos, ele e eu, num set de filmagem com 30 pessoas. Ele no centro, sob os refletores, no cenário, câmeras apontadas para si, prestes a dizer seu texto de protagonista. Neste momento, sem medo, ameaçou me tocar novamente se eu continuasse a não falar com ele. E eu não silenciei.”

“VACA”, ele gritou. Para quem quisesse ouvir. Não teve medo. E por que teria, mesmo?
* O termo original era pejorativo.

 

Muito ainda precisa ser feito, mas temos caminhado em direção à construção de uma sociedade sem preconceito de gênero. Para isso, é de suma importância a conscientização de todos, além de investimentos públicos a fim de assegurar a segurança da mulher e a criação de um mundo cada vez mais justo e igualitário.

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